Uma querida amiga recebeu outro dia um e-mail sobre o podcast de outra amiga querida. Ela olhou intrigada e, enfim, exclamou: “Isso é coisa de viado, ou a gente ta ficando velho mesmo?”
Pois é. Boa pergunta. É claro que falar “coisa de viado” não se refere a nenhuma opinião preconceituosa sobre os homosexuais, ao menos, não dela mesmo. Evidentemente é sim uma impregnação cultural bem preconceituosa e antiquada. Na realidade, falar “coisa de viado” não quer dizer que a gente não gosta de viado, e nem que a gente não gosta de “coisa de viado”. Quer dizer só que…que..que a gente é velho mesmo! Porque não se fala mais “coisa de viado”. Aliás, mais da metade dos nossos amigos mais queridos são gays. Apesar deles também serem da nossa geração, a maioria deles não fala “coisa de viado”, porque eles estão normalmente na vanguarda. Eles são descolados, porque já que a cultura clássica, o mainstream social, coloca eles de lado, então eles chutam o caneco e se ligam no que há de mais novo no universo da produção de cultura. Aliás, por isso mesmo a pergunta sobre o podcast. A gente nem descobriu que isto existe e já tem gente fazendo isso. É revoltante pra alguém como nós! Nós que queríamos ser a ponta do que se faz em cultura! Mas a gente não consegue. A gente não consegue porque agora tem esse papo de “novas mídias”. Quando o primeiro jornal começou a publicar fotografias coloridas eles anunciaram até na TV. Pô! Eu lembro disso! Aliás, jornal, TV,…isso eu conheço. Conheço outdoor, que agora nem pode mais!
Aí começou a Internet! Isso ia ser a nova mídia. Internet?! Nem se fala mais internet. Agora cada coisinha que rola na Internet tem um nome. Tem um monte de coisas rolando por lá. Até vida paralela! Aliás a tecnologia é fantástica, mas esse papo de Second Life é esquisito. Eu sei que Second Life poderia estar em negrito, mas eu tenho uma triste notícia: isso não é outra língua. É assim que chama mesmo. Não tem um nome em outra língua. É esquisito, mas pode ser legal. Legal porque a gente pode experimentar viver outras vidas. Esquisito porque tem gente que deixa a vida de lado pra curtir só essa vida virtual. Sei lá…eu acho esquisito, mas talvez seja porque eu tô velho. Acho que se for uma second life, ok. O problema é virar only life…ou lonely life. Na real, ta cheio de coisa esquisita nesse negócio de novas mídias. Tipo TV no elevador. E agora? Acabou aqueles momentos constrangedores de silêncio? Aquela coisa chata de comentar sobre o tempo. Ta sol hoje, né? Nossa como esfriou! Que nada! Agora tem TV no elevador mostrando a previsão do tempo no mundo todo pelos próximos cinco dias! Que coisa chata! A gente mal entra no elevador e já tem de ver a notícia de que jogaram uma menininha pela janela! Caramba! Privacidade agora, só no banheiro! …Por enquanto. Quer dizer, em banheiro de bar já tem novas mídias também, mas em casa ainda não.
Eu acho tudo legal, mas lamento as saudades de coisas que ainda não se foram, mas acho que irão. Tipo ler o jornal no domingo de manhã enquanto o leite sobe na leiteira e deixa aquele cheirinho na cozinha. Tipo perder alguma seção do jornal no meio de todos aqueles cadernos de domingo… Mas, ao mesmo tempo, papel destrói árvores…
O lixo eletrônico, no entanto, é outro problema. O que fazer com milhões de aparelhos de celular que viram lixo todos os anos? Pois é! Ta meio complicado, mas eu não temo pelo mundo não. O mundo não vai acabar por nossa causa. Nós é que vamos acabar, o mundo vai ficar por aí, habitado pelas baratas de filtro solar que vão se bronzear num mundo mais quente. Por fim, descobri o que é podcast, e isso já valeu o dia. Me senti até mais jovem.
Marcio Svartman
*quem quiser conhecer os podcasts da nossa querida amiga Cris Naumovs, vale a pena. Procura ela aí no google que vc vai achar um monte coisas. Porque é isso que ela faz: um monte de coisas excelentes!
Tenho medo do escuro
Onde reside o nada
Que esconde quase tudo.
Tenho medo do nada
Onde reside a ausência da verdade, A infinita possibilidade. Tenho medo do tudo
Que me parece muito para lidar, Mais do que posso controlar. Tenho medo da verdade Que se disfarça de conclusão, Sendo apenas ilusão. Tenho medo de mim Do que há dentro do meu ser Daquilo que ainda não posso ver. Tenho medo de ver dentro de mim Neste meu mundo obscuroOnde reside o escuro.
Meu avô era um caipira. Caipira da cidade, destes que destoam da correria ao seu redor. Desses cheios de histórias pra contar, que raramente abrem a boca pra contar uma dessas muitas histórias. Meu avô era desses, que mandam o filho pra São Paulo, pra estudar medicina. Mas quando meu pai foi estudar nos Estados Unidos e trouxe camisas novas pra ele – a última moda – ele nunca usou porque elas tinham as mangas curtas. Ele só usava camisas de manga comprida, calça social meio surrada, um sapato social que era sempre coberto por uma galocha de borracha caso o céu ameaçasse chuva. Galocha dessas que cobrem os sapatos, dessas que criança nenhuma sabe mais o que é. Dessas que não devem mais existir faz uns dez anos. Camisas com bolso pra poder deixar seu pentezinho de tartaruga marrom que ele usava dezenas de vezes por dia pra pentear o cabelo, que desde que me lembro já não era muito. Era vaidoso nos seus caprichos. Como o chapéu de festa, guardado na caixa com todo o cuidado. Chapéu que ele deixava que eu olhasse, mas não que eu vestisse. Tinha de me contentar com o seu chapéu de dia-a-dia: cinza com o forro vermelho. Fantástico. Era um chapéu de mafioso, mas não era do poderoso chefão como o chapéu de festa. Esse sim era um belo chapéu! Mas meu avô não levava jeito pra mafioso. Era bonzinho. Era como meu pai: Destes tão bonzinhos que passam a vida fingindo serem bravos, com medo de que alguém os passe pra trás. Destes que fazem uma cara feia, mas tem doçura nos olhos e o coração de mel. Eu e meu irmão passávamos tardes deliciosas na casa dele. Quando passávamos do limite, ele abria o cinto, fingindo que iria tirá-lo pra nos dar uma surra e fazia uma das suas caras de mau. Mas o cinto nunca saiu das passadeiras e meu avô nunca me encostou a mão, a não ser pra fazer um curativo na primeira picada de abelha que tomei na vida. Foi na estação de metrô, num dos muitos passeios que fazia com ele pela cidade. Ele fez um torniquete com o lenço de pano que levava sempre no bolso. Hoje eu sei que o torniquete não ajuda nada. Era só um cuidado. De estação em estação ele me mostrou São Paulo e me ensinou a gostar do metrô que pra mim vai ser sempre uma lembrança do Zeide Abrão. Zeide quer dizer Avô em idish. A língua que meus avós falavam, e era assim que eu o chamava: Zeide Abrão.Meu avô nasceu na Bessarábia. Estes lugares que a gente, depois de ir pra escola a vida toda, ainda não sabe bem aonde fica. Eu sei que era na Romênia, mas não é mais. Hoje acho que fica na Rússia. Fugiu da pobreza, antes da guerra. Andou pelo interior com meu bisavô, comprando e vendendo ouro e jóias. Desta época sobrou uns pedaços de metal e um revolver com o cabo de madrepérola, que sem munição e enferrujado virou brinquedo na minha infância, junto com o chapéu, é claro. O chapéu já se foi, o revolver mora em uma gaveta na casa dos meus pais. Quando meu pai nasceu, mudaram pra Ouro Fino, no interior de Minas Gerais. Faziam o que dava pra viver e lá, meu avô virou o “turco”. Ele não era turco, mas era assim que chamavam ele. Quando eu o conheci ele já não era mais o turco, era o Zeide Abrão. Aliás, foi no dia em que eu nasci que ele virou Zeide Abrão. Agora, não consigo ver uma bala dadinho, daquelas de amendoim, sem lembrar dele. Ele nunca chegou na nossa casa sem uma balinha pra cada um: Eu, meu irmão e a Dini, nossa cachorrinha. Sentava no sofá e picava o fumo de corda que enrolava na palha de milho. Fazia meu pai trazer palha de milho da fazenda pra ele fumar o seu cigarrinho. Eu ainda tenho o canivete que ele usava pra picar o fumo e esticar a palha. Meu irmão mais novo não o conheceu, mas tem o nome dele em hebraico. Homenagem mais do que justa. Outro dia, de repente, lembrei-me dele. Tive saudades como ainda tenho muitas vezes… Percebi há pouco que este dia era o aniversário dele. Ele já se foi há muito tempo, mas é incrível com ainda é presente. Ficou. Ficou em mim. Marcio
Este foi um projeto que saiu de uma conversa entre amigos numa mesa de bar…o resultado tá ai
http://laboratorio.us/blog/2008/03/26/mobile-game-mangueboy-flash-lite/





