(Segue aí uma pequena reflexão do meu pequeno irmão: André Svartman é publicitário, comunicólogo da ESPM e Mestre em Educomunicação pela Universidade Autônoma de Barcelona e um desses profissionais cricas fundamentais pro mercado.)
É muito comum que me depare com a pergunta: “Mas o que tem isso, de EduComunicação e Leitura Crítica dos Meios de Comunicação, a ver com a sua profissão, marketing e publicidade, na prática?”. Pois, quanto mais me perguntam, mais eu penso: “É, infelizmente parece que ainda muito pouco.”.
Apresento-me. Sou Publicitário e Comunicólogo de formação. Depois de uma juventude comunitária (no caso, na comunidade juvenil judaica), me graduei em Comunicação e Marketing. Estudei então Semiótica e Psicanálise, quando surgiu a oportunidade de partir para Espanha, onde concluí um Mestrado em EduComunicação, uma área pouco conhecida no Brasil, embasada em dois pilares: a Educação com a Comunicação (por exemplo as Televisões Educativas, como Cultura e/ou Futura) e a Educação para a Comunicação (conhecida como Leitura Crítica dos Meios de Comunicação). Pilar este segundo, que aprofundei meus estudos.Apesar de sempre seguir um paralelo acadêmico, foquei-me no mercado de marketing e propaganda. Após um breve período no mundo publicitário (Agência), já completo alguns anos de trabalho no mundo da Indústria, nas áreas de Marketing e Trade Marketing.E é neste “Mercado” que sigo meu caminho, tentando aplicar meus estudos e constantemente sendo barrado (interna e externamente) com a questão inicial deste texto: “Mas o que isso tem a ver?”.O disparate de meu interesse pelas ciências mais humanas ligadas à Comunicação – Psicanálise, Semiótica, Educação – foi minha percepção de que o Mercado é regido pelo concreto – dinheiro, lucro – mas que é formado e focado em algo subjetivo – profissionais, empregados, consumidores, clientes, compradores… pessoas. Uma percepção aparentemente óbvia. Mas, na prática, deixada de lado.É comum no mercado (principalmente dentro das áreas de Marketing e Trade Marketing) escutar afirmações como “Uma boa propaganda é aquela que gera vendas.”. O que é verdade. Mas e aquela que também “toca” o público? Que comove? Que ensina? Que tenta passar mensagens que não geram lucro concreto, mas que evitam a violência, o maltrato, o sofrimento?É também, ainda mais comum, observar-se no mercado (em todas as áreas, mas neste caso nas áreas de Marketing, Trade Marketing e afins) pessoas que almejam ganhar prêmios de renome, produzir campanhas que se tornem internacionalmente conhecidas, ganhar salários quase incalculáveis. O que é muito bom e louvável. Mas e a saúde? O tempo de lazer? O tempo de Ócio? A relação interpessoal entre os amigos e os membros de uma mesma família? Onde estão os louros por estas glórias dentro deste Mercado?Após muito estudo teórico nestas áreas Humanas e principalmente em EduComunicação, percebi o quanto é importante (e mais, poderia ser lucrativo) a Publicidade, a Propaganda, o Marketing… que utilize ferramentas mais subjetivas e que crie campanhas com conteúdos subjetivos, que objetive mais do que a simples entrega de um produto em troca de lucro.Contudo, juntamente com essa percepção, entendi que hoje, na prática, isso está longe de ser real. Que o mercado ainda está focado nas vendas e que as pessoas – o ser humano – ainda são consideradas meros coadjuvantes.Que a Leitura Crítica dos Meios de Comunicação, focada na criação de campanhas mais conceituais, realmente tem muito pouco a ver com a prática do dia-a-dia dos profissionais deste Mercado “Marketeiro-Publicitário”. E que é mais entendível a pergunta “Mas o que isso tem a ver?”, do que a resposta “Muito. Tudo. A diferenciação está justamente nas campanhas que percebem que vender um produto, sem passar um conceito, não funciona mais, e funcionará cada vez menos.”.Darei um exemplo prático, vindo de minha própria experiência.No início do novo milênio – ano 2004 aproximadamente – a marca de beleza Dove lançou internacionalmente a campanha Dove Pela Real Beleza. Uma campanha que defendia (e defende) que toda mulher tem sua beleza, que a beleza estereotipada pela mídia não é atingível por todas e que isso não pode fazer com que essas não sejam consideradas, e mais, não se sintam, belas e realizadas.Uma campanha maravilhosa, pautada em pesquisas globais cuidadosas e grandiosas.Uma campanha de vanguarda. Que sem deixar de vender seu produto – afinal, a campanha continuava dizendo “use Dove” – passa um conceito educativo e profundo.Infelizmente, o Mercado ainda não estava (e não está) preparado. Dove sofreu muito para crescer como suas marcas concorrentes que utilizam mulheres maravilhosas para suas campanhas e que passam mensagens como “use meu produto e fique tão maravilhosa quanto esta pessoa que socialmente é considerada uma beldade e que agora está aqui, na televisão, desfilando para todos.”. E, para comprovar, tudo isto culminou na recém lançada – 2008 – campanha de Dove Brilho Therapy, de que “se o produto não funcionar, Dove devolve o seu dinheiro”. Uma campanha muito agressiva, já utilizada por outras marcas, como a de Iogurtes, Activia, mas que não tem nenhuma ligação com qualquer conceito profundo. Menos ainda, com o conceito da Real Beleza, que se tornou então coadjuvante das campanhas da Marca, ainda que, teoricamente, é maravilhoso e, na pratica – até demasiado – de vanguarda.Exemplos como este intriga aos publicitários mais humanistas. Intriga e, muitas vezes, faz com que este perfil de profissionais desista de tentar criar campanhas mais educativas. Desista de tentar tirar o foco de vender, vender, vender. Desista de explicar que “isso tem muito a ver”.Mas o fato é que o ser humano tem sentimentos. Seja o inconsciente descrito por Freund, seja a percepção da mensagem descrita por Pierce, seja a teoria do aprendizado e da experiência, descrita por Piaget. Seja qual for a teoria, todas se embasam na profundidade sentimental por trás de cada ato, de cada desejo, de cada realização.E são estes desejos que estão sendo trabalhados de uma maneira extremamente superficial. A publicidade hoje se baseia na não-cultura. Longe da atual moda da contra-cultura, a não-cultura é objetivamente a utilização de repertórios o mais rasos quanto possível for. É o uso da ignorância para o convencimento, ao invés do combate à ignorância, pensando num futuro bem comum.Apresentadores(as) de TV sem qualquer conteúdo. Modelos de passarela que nada além do corpo apresentam. Músicos que trazem letras que falam e falam sem dizer nada. Estes são os ídolos das mídias da atualidade.Modelos e atores diferenciados, músicos profundos, filósofos, pintores, historiadores, psicólogos ou pesquisadores das distintas áreas do conhecimento não são utilizados. Não se tenta pensar para vender. Se vende para, se der tempo, talvez tentar pensar.A propaganda é o reflexo disto para a massa. A publicidade demonstra isso para o mundo. E o marketing apóia este tipo de ação.Com tudo isto, qual seria então a resposta para a pergunta “O que isso tem a ver?”, eu não sei. Mas afirmo com segurança que o trânsito maluco das grandes capitais, o número assustadoramente crescente de suicídios e de doenças psicossomáticas em pessoas cada vez mais jovens, o aumento nos divórcios, o aumento incalculável no número de depressivos, a competição exagerada já entre crianças… isso, caro leitor, eu digo com segurança, tem muito, muito a ver.