Tenho medo do escuro

Onde reside o nada

Que esconde quase tudo. 

Tenho medo do nada

Onde reside a ausência da verdade, A infinita possibilidade. Tenho medo do tudo

Que me parece muito para lidar, Mais do que posso controlar. Tenho medo da verdade

Que se disfarça de conclusão, Sendo apenas ilusão. Tenho medo de mim

Do que há dentro do meu ser Daquilo que ainda não posso ver. Tenho medo de ver dentro de mim

Neste meu mundo obscuro

Onde reside o escuro.

Meu avô era um caipira. Caipira da cidade, destes que destoam da correria ao seu redor. Desses cheios de histórias pra contar, que raramente abrem a boca pra contar uma dessas muitas histórias. Meu avô era desses, que mandam o filho pra São Paulo, pra estudar medicina. Mas quando meu pai foi estudar nos Estados Unidos e trouxe camisas novas pra ele – a última moda – ele nunca usou porque elas tinham as mangas curtas. Ele só usava camisas de manga comprida, calça social meio surrada, um sapato social que era sempre coberto por uma galocha de borracha caso o céu ameaçasse chuva. Galocha dessas que cobrem os sapatos, dessas que criança nenhuma sabe mais o que é. Dessas que não devem mais existir faz uns dez anos. Camisas com bolso pra poder deixar seu pentezinho de tartaruga marrom que ele usava dezenas de vezes por dia pra pentear o cabelo, que desde que me lembro já não era muito. Era vaidoso nos seus caprichos. Como o chapéu de festa, guardado na caixa com todo o cuidado. Chapéu que ele deixava que eu olhasse, mas não que eu vestisse. Tinha de me contentar com o seu chapéu de dia-a-dia: cinza com o forro vermelho. Fantástico. Era um chapéu de mafioso, mas não era do poderoso chefão como o chapéu de festa. Esse sim era um belo chapéu! Mas meu avô não levava jeito pra mafioso. Era bonzinho. Era como meu pai: Destes tão bonzinhos que passam a vida fingindo serem bravos, com medo de que alguém os passe pra trás. Destes que fazem uma cara feia, mas tem doçura nos olhos e o coração de mel. Eu e meu irmão passávamos tardes deliciosas na casa dele. Quando passávamos do limite, ele abria o cinto, fingindo que iria tirá-lo pra nos dar uma surra e fazia uma das suas caras de mau. Mas o cinto nunca saiu das passadeiras e meu avô nunca me encostou a mão, a não ser pra fazer um curativo na primeira picada de abelha que tomei na vida. Foi na estação de metrô, num dos muitos passeios que fazia com ele pela cidade. Ele fez um torniquete com o lenço de pano que levava sempre no bolso. Hoje eu sei que o torniquete não ajuda nada. Era só um cuidado. De estação em estação ele me mostrou São Paulo e me ensinou a gostar do metrô que pra mim vai ser sempre uma lembrança do Zeide Abrão. Zeide quer dizer Avô em idish. A língua que meus avós falavam, e era assim que eu o chamava: Zeide Abrão.Meu avô nasceu na Bessarábia. Estes lugares que a gente, depois de ir pra escola a vida toda, ainda não sabe bem aonde fica. Eu sei que era na Romênia, mas não é mais. Hoje acho que fica na Rússia. Fugiu da pobreza, antes da guerra. Andou pelo interior com meu bisavô, comprando e vendendo ouro e jóias. Desta época sobrou uns pedaços de metal e um revolver com o cabo de madrepérola, que sem munição e enferrujado virou brinquedo na minha infância, junto com o chapéu, é claro. O chapéu já se foi, o revolver mora em uma gaveta na casa dos meus pais. Quando meu pai nasceu, mudaram pra Ouro Fino, no interior de Minas Gerais. Faziam o que dava pra viver e lá, meu avô virou o “turco”. Ele não era turco, mas era assim que chamavam ele. Quando eu o conheci ele já não era mais o turco, era o Zeide Abrão. Aliás, foi no dia em que eu nasci que ele virou Zeide Abrão. Agora, não consigo ver uma bala dadinho, daquelas de amendoim, sem lembrar dele. Ele nunca chegou na nossa casa sem uma balinha pra cada um: Eu, meu irmão e a Dini, nossa cachorrinha. Sentava no sofá e picava o fumo de corda que enrolava na palha de milho. Fazia meu pai trazer palha de milho da fazenda pra ele fumar o seu cigarrinho. Eu ainda tenho o canivete que ele usava pra picar o fumo e esticar a palha. Meu irmão mais novo não o conheceu, mas tem o nome dele em hebraico. Homenagem mais do que justa. Outro dia, de repente, lembrei-me dele. Tive saudades como ainda tenho muitas vezes… Percebi há pouco que este dia era o aniversário dele. Ele já se foi há muito tempo, mas é incrível com ainda é presente. Ficou. Ficou em mim. Marcio

Que tal pra caminhar em São Paulo?
grama.jpg

Hoje tem abertura da exposição individual de Nino Cais na Galeria Virgílio, no andar térreo uma instalação com objetos de plástico multicoloridos, desenhos e fotografias onde o foco é o diálogo entre o corpo o espaço e objetos diversos.

Quarta-feira, 09 de abril às 20hs a exposicão fica de 10 de abril a 2 de maio de 2008.

Mais infos: http://www.galeriavirgilio.com.br/

08041.jpg

Aqui da sala da Redação e Arte da Elos, temos uma audiçã privilegiada dos barulhos da rua. Conversas fora de contexto, loucos gritando, bêbados cantando… e, é claro, as buzinas. É incrível como o farol da esquina da Rua Aurélia com a Camilo desperta a ira dos motoristas que transitam pela Vila Romana. Um inferno sonoro com hora marcada para começar (18h, é claro).

Vou propor para a CET colocar um cartaz como este aqui abaixo. Quem sabe resolve nosso problema!

no-horn-blowing.jpg

(”Proibido buzinar, exceto em caso de perigo”, em tradução livre)

« Anteriores